Gosto muito desse trem.

Quando bem jovem(1), procurei um das grandes agências do Brasil, na época não sabia, mas era a terceira na lista das maiores. Com uns desenhos debaixo do braço e umas folhas de papel cheias do que julgava serem “boas idéias” fui buscar, ou fazer, o meu segundo emprego. O primeiro – entregador de copiadora – me levou a conhecer algumas agências. Ficava pensando que de alguma forma era ali que eu deveria estar e não correndo de cá pra lá com aqueles tubos de cópias(2), folhas de Letraset(3) e colas.

Um dia vendo toda a movimentação da agência, ah sim já estava lá estagiando na agência do "seu Norton”(4). Tive um sonho: queria aprender TUDO do negócio! E assim fiz três turnos entre as minhas tarefas do dia e bisbilhotar e ajudar em tudo que rolava em torno. Acompanhava nas madrugadas e fins de semana, as gravações de rádio e TV, produções, atores, modelos, fotografias, filmagens, durante os dias via, ouvia e tentava participar das discussões do que dava errado e o que dava certo... Fiz uma universidade que não encontrava nas escolas.

O estágio(5) se alongava... Ou seja, grana que era bom e eu precisava neca. Mas serviço não faltava, a Agência atendia contas do chamado Varejão – grande escola! Fazia a gente virar noites preparando montanhas de anúncios para o domingo, com ofertas mirabolantes e muita criatividade para fazer diferente e atrativo o que na verdade toda loja tinha igual – os mesmos produtos, preços e crediário.

Planejei que chegaria o dia de ir às agencias só com uma lapiseira(6) no bolso e as idéias na cabeça e assim resolveria os desafios do que tivesse ali precisando de solução. Pois é... Nesta idade a gente acha que quer mesmo mudar o mundo, só rindo.

Lá estava eu atendendo algumas solicitações de clientes – pequenos comerciantes e empresários com seus escritórios no caminho entre a agência e a minha casa(7). Passando pelas suas portas era irresistível não oferecer “uma ajuda”(8) aos seus negócios.

Uma sucessão de parcerias(9) e, depois, as chamadas duplas de criação – famosas na época, até que resolvi eu mesmo ser a dupla, ou a trinca, ou mais...

Depois disso fiquei no timão de duas agências pequenas, atrevidas(10) e bem sucedidas. O tempo não pára. É um sacana. A lapiseira deu lugar a um note book, a montanha se anúncios cedeu às soluções específicas e bem focadas, a gritaria substituída por estratégia e a internet possibilitou estar em vários lugares ao mesmo tempo. E a criatividade, esta velha amiga, quero sempre junto de mim.
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1- Jovem mesmo, tinha 14 anos; 2- Àquelas cópias enormes de plantas em papel vegetal e as heliográficas também; 3- Para quem não conheceu ou já é do tempo do computador, do CorelDraw ou do Photoshop, as Letraset(s) eram folhas de acetato ou vinil, onde tinham impressas no verso letras e símbolos destacáveis que utilizávamos para os títulos e textos de anúncios e peças gráficas; 4- A gente brincava na época que seu Ford era dona da Ford, a Chevrolet portanto, era do seu Chevrolet e assim por diante; 5- Os estágios geralmente porta de entrada para a profissão eram sem remuneração e muitas vezes – como foi o caso – se alongavam por meses pois não existia legislação sobre a matéria e dava às más empresas oportunidade de ficar adiando a contratação e “cozinhando” com as expectativas e sonhos de jovens aspirantes de poetas e idealistas; 6- Era uma das ferramentas mais bacanas com a “tecnologia” das minas finíssimas de grafite, hoje comum e despercebidas, eram bem bacanas pertos dos grosseiros lápis; 7- Caminhada as vezes muito agradável mas por outras, forçadas, meio que molhado de chuva ou cheio de preguiça e suor; 8- Sempre fácil ter as idéias que serviram para impulsionar negócios e dar uma força extra às iniciativas... Mas este termo, ajudar, muitas vezes usado por mim, foi condenado por meu analista; 9- Era só chamar, encarava todos os trabalhos que me convidavam, sempre gostei muito dos desafios desta área e me ter como parceiro em um novo empreendimento ou empreitada quase não precisava de convite eu mesmo já me encarregava; 10- Atrevida sim, pois, em uma delas com 3 anos de briga em um mercado fechado e seletivo, atendíamos e, assim por 14 anos, o maior grupo anunciante privado do nosso estado – privado sim, nunca quis trabalhar para governos e igrejas de espécie alguma – como diz o Gabeira: "da máquina municipal, estadual, federal ou universal" - um dinheiro meio discutível de se ganhar. E ainda acho.
Vale lembrar:
Agregue serviços aos produtos da sua empresa, procure por conceitos. Os produtos diferem muito pouco, mesmo que você pense ter a certeza de produzir o melhor. O consumidor pode não se interessar em saber.

LK